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[RESENHA] Cicatrizes

Por: Eduardo Costa



Em 'Cicatrizes', o autor e ilustrador David Small expõe momentos dolorosos de sua infância e juventude. Como um drama kafkiano, as imagens desta graphic novel trazem, uma a uma, o retrato da vida difícil que David - uma criança extremamente criativa e talentosa - suportou por ter sido vítima da frustração e da raiva dos seus próprios pais. 

Livro: Cicatrizes
Autor: David Small

Editora: Leya Cult
Páginas: 336
Ano: 2010
Classificação: ★★★★★ (5/5)

Por Edu.

E aí, pessoal? Tudo bem?

Não sei ainda se Cicatrizes é uma HQ autobiográfica tristemente aterradora ou aterradoramente triste. No entanto, a única certeza que tenho é que, de uma forma ou de outra, é uma história extremamente tocante. A autobiografia tem não só
o peso da história em si a seu favor, nem só a absurdamente linda arte de Small, mas também é brilhantemente conduzida. Ela nos insere no mundo cinza, triste e silencioso da vida de David Small, um jovem de família desestruturada, que quase perde a voz e tem de aprender a lidar com seu mundo sem cor (e sem voz).

O próprio título "
Cicatrizes" tem múltiplas conotações. Ela refere-se, obviamente, às cicatrizes advindas do procedimento cirurgico que, por pouco, não lhe tira a capacidade de falar. No entanto, mais do que isso, as cicatrizes referem-se às cicatrizes emocionais, vindas de todo o peso que o pequeno David tem que carregar. Sua mãe, mal humorada e carrancuda, que parece pouco se importar com o filho; seu pai, um renomado radiologista e de paternidade indiferente, mais preocupado com a carreira; o irmão, que parece não estar ali... Todas são figuras com suas próprias "linguagens" silenciosas, apáticas ao jovem David, mas que compõem seu mundo cinzento.

A narrativa de Small é essencialmente gráfica. Páginas e mais páginas passam sem uma palavra sequer, relegando às imagens a responsabilidade de contar a tragetória da triste e solitária infância do autor. O silêncio faz parte da narrativa de David Small (o autor) e do mundo do jovem David (o personagem), e terminia compondo a própria obra, se tornando um elemento fundamental da mesma.


Tudo em Cicatrizes nos traz uma sensação desesperadora, angustiante. Os tons de cinza, a arte impecável (simples, mas muito sofisticada), as sequências narrativas, os cenários vazios ou pouco detalhados,
o silêncio aterrador - seja pela falta de diálogo do personagem com a família (em todos os aspectos), seja após quase perder a voz - enfim, tudo nos imerge no mundo de David.


A arte de Small, inclusive, é impressionante: com tons perfeitos, traços limpos e sutis, pinceladas propositalmente irregulares, a maestria no uso do pincel... Cada quadrinho, em cada, página, tem um sentido em si mesmo, como se Small quisesse não apenas contar sua história por quadros, mas ilustrá-la, no mais completo dos sentidos. Cabe, inclusive, lembrar que David Small é ilustrador de livros infantis por profissão, e apenas se aventura em alguns trabalhos com quadrinhos (embora aqui demonstre maestria na Nona Arte).

De toda forma, não sei bem explicar minha experiência ao ler a obra. É tudo tão triste, tão  solitário, tão dolorido... Simplesmente tocante. Cicatrizes é de fato uma obra difícil de definir ou criticar, justamente por ser uma viagem  extremamente pessoal, para os leitores e especialmente para o autor. Uma leitura que vale muito, muito a pena.

É isso aí, galera. 
Grande abraço a todos e boas leituras.

OBS¹: Há tempos não lia nada tão dramático e intenso... Fiz a primeira leitura em uns 40 minutos, e logo em seguida fiz uma nova leitura de 3 horas... Apenas saboeando a arte e tudo que ela transmite da história de David Small.


OBS²: Depois da leitura, dei um abraço no meu pai, na minha mãe e na minha irmã. Não poderia ser mais grato pela família que tenho e ao ver famílias como a de David (que não são poucas, apesar de seu drama se dar em outra época), fico ainda mais.


OBS³:
Ganhei esse livro do meu amor, minha namorada, Lilian Rosa. Obrigado pelo lindo presente, amor.

[RESENHA] Gen – Pés Descalços (série)

Por: Eduardo Costa


Gen Pés Descalços (Hadashi no Gen, em japonês) é uma história autobiográfica. Seu autor, Keiji Nakazawa, tinha 7 anos quando a bomba atômica atingiu Hiroshima, cidade onde morava com a família. É um relato comovente da difícil vida de uma família japonesa, vítima da bomba atômica, durante e após a Segunda Guerra Mundial. Foi a primeira história em quadrinhos japonesa a ser publicada nos Estados Unidos, onde foi incluída em uma lista de livros recomendados para escolas públicas. Transmitir a experiência da guerra, principalmente do sofrimento causado pela bomba atômica, para uma geração que não a conhece, ainda é um desafio complexo. Nesse sentido, Gen Pés Descalços cumpre perfeitamente essa missão ao trazer, para crianças e adultos de todos os lugares, um retrato honesto de emoções e experiências vivenciadas durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Livro: “Gen – Pés Delcaços” (Volume 1 ao 4)
Autor: Keiji Nakazawa
Editora: Conrad
Páginas: Média de 200 a 250 por volume
Classificação: ★★★★★ (4/5)


por Edu.

"Gen - Pés Descalços" é uma história sobre humanismo. É um mangá sobre um garoto pobre, de uma família pacifista (e por isso, "antipatriota"), em um Japão que se afunda na guerra, e que vê sua vida virada de ponta cabeça após um dos capítulos mais tristes da história da humanidade: a utilização de armas nucleares em Hiroshima.

O mangá também pode ser encarado como o testemunho de milhares de pessoas, vítimas diretas ou indiretamente da bomba atômica. Todo o sofrimento e angústias vividos ali por Gen, sua família e por outros personagens coadjuvantes, tem um fundo "autobiográfico" do próprio Keiji Nakazawa. No entanto, mesmo com toda a dor, não é à tristeza e ao lamento que Nakazawa se apega: é à esperança.

Toda a série é dotada de um otimismo juvenil, por vezes inocente, mas que contagia. O leitor não só espera que tudo ocorra bem. Nós também torcemos junto, sofremos junto e temos fé de que tudo vai melhorar! Não é um inocência tola, cega: afinal, Gen não é idiota. Trata-se de ter a capacidade de acreditar que o melhor está por vir.

O discurso pacifista da primeira edição cansa às vezes, dada a sua ênfase constante. A ingenuidade, tanto do texto como da arte, no entanto, condizem com a proposta de Nakazawa para a própria obra: que ela servisse para lembrar ao mundo o que aconteceu, e que fosse um alerta, para que nunca mais se repetisse. O otimismo do autor, muito bem expressado nos pensamentos e na história do próprio Gen, é o que torna sua obra mais leve (às vezes, até infantil), apesar de um conteúdo tão denso.

Particularmente, também me incomodaram alguns erros históricos. É compreensível que, no entanto, apesar de um excepcional narrador e por ser a obra quase uma autobiografia, Nakazawa "distorça" algumas memórias ou simplesmente queira justificar algo para si mesmo. Um exemplo é a insistência em apresentar Einstein como um dos cientistas diretamente envolvidos na produção da bomba atômica. No entanto, mesmo tais erros servem para enriquecer a obra, de certa forma, como um inestimável depoimento sobre a visão japonesa da guerra.

Por falar nisso, os costumes e tradições japonesas são muito bem retratados lá. Mesmo as situações específicas, como o comportamento da vizinhança com os "antipatriotas", é muito bem ressaltado. Obviamente que, para sustentar a série e apresentar mais fielmente o "impacto" da bomba sobre a vida dos cidadãos (com o perdão do trocadilho... rsrs), o autor utiliza de várias estórias paralelas à trama principal. Algumas são muito boas, algumas outras, nem tão boas assim. Entretanto, inevitavelmente, todas contribuem para construir um grande panorama da vida japonesa "pós-bomba".

Da série, já foram publicados 4 volumes, de um total (provavelmente) de 10 edições. A atual edição da Conrad Editora está caprichada! Para começar, ao contrário da 3ª edição, onde se fez uma péssima adaptação ao mangá, "ocidentalizando-o" (invertendo a ordem da leitura, abolindo onomatopeias em kanji, etc), a edição conta com lindas capas, ótimo papel, páginas iniciais coloridas (como no original em japonês) e introdução de Art Spiegelman (autor do clássico "Maus", sobre outra grande tragédia da Segunda Guerra: o Holocausto), entre outras coisas.

Concluindo, "Gen - Pés Descalços" é, sem dúvida, um dos relatos mais comoventes e impactantes sobre o "legado" de dor deixado pela Segunda Guerra. Ao mesmo tempo, não se trata de uma obra sobre o sofrimento, mas sobre a esperança, o otimismo e o humanismo. A mensagem deixada por Gen é a de que, não importam as dificuldades, pois sempre poder-se-á começar de novo, tentar mais uma vez e seguir em frente. Uma obra incrível sobre superação e fé em dias melhores.

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OBS: Fiquei IMENSAMENTE feliz em saber que no Youtube tem um filme em animação de Gen – Pés Descalços! E o melhor: está legendado em português! Seguindo a promessa da nova “linha editorial” do Stealing Books, uma abordagem transmidiática da cultura pop e do universo literário,  apresento a vocês a adaptação em animação do mangá. 

A animação é uma adaptação da obra, então não esperem simplesmente uma reprodução do mangá na forma de anime. Em termos narrativos, a adaptação não ficou tão boa, pois deixa de lado alguns pontos da obra que eu entendo como fundamentais. No entanto, ainda assim, vale para ilustrar a história, já que conserva a mensagem de esperança. A animação é de 1983, com direção de Mori Masaki. 


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